Uniformes de inverno e de verão dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial - Visita ao Museu do Expedicionário em Curitiba (PR)

by - julho 29, 2021


Neste mês de julho, aproveitando as férias, resolvi conhecer uma capital próxima à São Paulo da qual não sabia absolutamente nada além do fato de ser conhecida pelo planejamento urbano modelo. Entretanto, Curitiba me surpreendeu muito mais pelos museus. Além do Museu Paranaense, que conta com um acervo incrível de artefatos arqueológicos, a cidade ainda conta com o Museu do Holocausto e o Museu do Expedicionário (!).

Infelizmente o Museu do Holocausto estava fechado devido à pandemia. Porém, o Museu do Expedicionário, aberto desde 1946, estava em atividade.

Não tem nada disso em São Paulo, a locomotiva do Brasil, cof, cof

O Museu do Expedicionário com as esculturas do pracinha no topo, o caça P7 Thunderbolt utilizado pela FEB e pelos aliados e o pinheiro-do-paraná bem no meio.

Quem me segue nas redes sabe que tenho preferência por estudar a história e as roupas do período da Segunda Guerra Mundial. A participação do Brasil neste conflito é pouquíssimo conhecida e até escrevi um pouco quando pesquisei sobre os trajes das enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira. 

Assim sendo, o que me surpreendeu no Museu do Expedicionário foi a quantidade de peças de vestuários originais, tanto do exército brasileiro quanto dos Aliados (os países que lutavam contra os nazistas).

E sabe o que deu pra perceber com isso? Que os brasileiros passaram um frio da moléstia!


Chegando na Europa e a cobra fumando: verão de julho de 1944

Bom, digamos que o Brasil já chegou meio tarde na Guerra, que começou mesmo em setembro de 1939 e terminou em 1945. Desde então, a Europa já tinha pegado fogo de tudo quanto é jeito e a população italiana estava em penúria e os Aliados tentavam expulsar os italianos de lá. Após um período de treinamentos no Brasil, em julho de 1944 chega à Itália a primeira leva de soldados brasileiros.

Lendo a monografia de Karine dos Santos, que coletou dados e depoimentos sobre os pracinhas na Itália, temos a informação de que o 6º Regimento de Infantaria "passou a primeira noite sem ter onde dormir, e na manhã seguinte, receberam barracas para levantar o acampamento no mesmo lugar onde passaram a noite. Ficaram aproximadamente 20 dias acampados ali, sem saber quando iriam para a frente de batalha ou receberiam algum material". 

Desembarque do primeiro escalão da FEB na Itália.
Local: Museu do Expedicionário em Curitiba.

E segue mais (!):

"Não havia o que fazer, pois os homens ainda não haviam recebido armamento ou instrução de espécie alguma. Os brasileiros foram à Itália sem material bélico, dependendo exclusivamente do fornecimento norte-americano (...), desde a comida até os uniformes de inverno".

Uniformes de sarja de algodão (ou brim) dos praças da Força Expedicionária Brasileira.
Note que a exposição à luz já causou alguns danos de descoloração nas peças.
Local: Museu do Expedicionário em Curitiba.

E segue mais na fala de um pracinha, porque o brasileiro é antes de tudo um forte:

"O que recebemos, às vésperas do embarque (...) foi mais decepcionante. O de brim verde-oliva, brim de algodão, era vergonhoso em qualidade e apresentação: cedo desbotava, enquanto se encolhia além de qualquer tolerância, deixando seu portador num recorte ridículo"

Jaqueta verde-oliva usada pelos praças da Força Expedicionária Brasileira.
Local: Museu do Expedicionário em Curitiba.

Nessa situação complicada, os oficiais brasileiros resolveram acatar, depois de alguma relutância, a sugestão dos norte-americanos: solicitar para os Estados Unidos uniformes  para o Exército Brasileiro. E é isso.

Bem, estas informações e reflexões não estão expostas assim com esta clareza no Museu, mas sabendo deste contexto dá pra entender melhor como foi a experiência dos praças brasileiros e porque os uniformes de vários países expostos lá são de tecidos e cortes tão diferentes.

Os uniformes brasileiros são, em geral, de algodão. Já os uniformes americano, polonês,  canadense e britânico, são de lã! 

Uniforme de oficial polonês (marrom) e de oficial britânico (RAF).
Local: Museu do Expedicionário de Curitiba.

E isso é importante, porque a Europa tem um verão fresco e um outono gelado...agora pensa no inverno......no inverno, NEVA! E os soldados de tudo quanto é lugar do Brasil saíram daqui com casacos de algodão......planejamento ZERO.

O inverno: novembro de 1944

Uma coisa muito legal do Museu Expedicionário de Curitiba é que eles expõem uma série de objetos usados pelos pracinhas na vida cotidiana. E sim, o acervo conta com uniformes de inverno!!!

Bom, primeiro é importante saber que o Brasil enviou alguma coisa de inverno. Por exemplo, foram enviadas capas de gabardine impermeáveis, mas nos primeiros usos, elas ficaram encharcadas (sobre isso, a dissertação do Marcos Costa traz alguns comentários). Também haviam cobertores, que contavam com baixa porcentagem de lã....não eram suficientes.  E aí os Estados Unidos tiveram que intervir.

Haviam dois modelos americanos: um deles era formado por jaqueta e calça de lã, meias e luvas também de lã. O uniforme tem um exemplar, mas a foto ficou muito ruim (as peças são expostas atrás de um vidro, e algumas ficaram embaçadas).

O segundo uniforme, e mais impressionante, era o uniforme camuflado de neve. E o Museu do Expedicionário tem um deles, aparentemente completo!!! Esse uniforme foi importante para caminhar e se posicionar nas montanhas sem ser visto, pois era branco e se confundia com a neve. Além disso, era um uniforme reforçado, contando com várias camadas para isolar bem o corpo do soldado.

Uniforme camuflado de neve, galocha e acessórios, par de esquis e cama-rolo,
vestidos pelos pracinhas durante a Segunda Guerra Mundial.
Local: Museu Expedicionário de Curitiba.

Segundo a legenda elaborada pelo próprio Museu, o uniforme tem:
  • capa reversível (verde e branco);
  • pulover de lã;
  • calça branca;
  • bornal;
  • galocha (mukluk);
  • revestimento para galocha;
  • luva.

De bônus, ainda tem um par de esquis! 

Soldados da Força Expedicionária Brasileira trajados com o uniforme camuflado de neve. 
Fonte: Jornalismo de Guerra.


Agora imagina a reação do pracinha brasileiro, vindo das lavouras e confins tropicais, com a neve. Ainda segundo a dissertação da Karine dos Santos, escreve um pracinha: 

"A nevada era para nós um espetáculo inédito e de certa forma curioso.(...) De repente as nuvens começam a branquear e achávamos que ia chover.(...):o ar se enche de flocos alvíssimos de neve, caindo silenciosa, morna e poeticamente."

E mais:

"Era deveras engraçado ver aquela moçada de luvas, uns andavam de dedos abertos, outros não as tiravam nem para tomar a sopa, e houve, por fim um grupo mais reduzido que gostou tanto das luvas, achando-as tão bonitas, que resolveu não usá-las.”

Praças brasileiros transportando material em meio à neve, Itália.

Outros uniformes importantes: a enfermeira da FEB

Não podemos nos esquecer das enfermeiras do Serviço de Saúde da FEB. Assim como os soldados, elas receberam uniformes insuficientes para o uso diário, e tiveram que usar os aventais e capas cedidos, novamente, pelos americanos.

Um deles é o uniforme de verão, que originalmente é um vestido transpassado de anarruga, com listras brancas e marrons. O exemplar existente no Museu é uma réplica, mas atende ao interesse de conhecermos o que vestiram estas profissionais num cotidiano de tratamentos dos feridos de guerra nos hospitais de campanha. 

Réplica de avental norte-americano cedido
às enfermeiras da Força Expedicionária Brasileira.
Local: Museu do Expedicionário de Curitiba.

Enfermeiras da FEB vestindo os aventais norte-americanos, na Itália.
Fonte: foto de foto exposta no Museu do Expedicionário de Curitiba.

O segundo exemplar é o uniforme de passeio verde-oliva enviado pelo governo do Brasil mesmo. Um uniforme de passeio é aquele que se usava em ocasiões fora do front/hospitais e das áreas relacionadas à administração de guerra, ou seja, passeios na cidade, missas e cultos, entre outras ocasiões.

O uniforme está completo e em muito bom estado. Feito em sarja de algodão, conta com jaqueta, saia, cinto e quepe. 

Detalhes da jaqueta e quepe em sarja de algodão.
Local: Museu do Expedicionário de Curitiba.


Sobre estes uniformes, recomendo fortemente que leiam meu outro artigo sobre as enfermeiras aqui no blog.

Uniforme de passeio das enfermeiras da FEB.
Local: Museu do Expedicionário em Curitiba


E depois da Guerra, o que aconteceu com os uniformes?

Bem, acabada a guerra, quem não fosse militar antes dela seria dispensado e teria que devolver tudo ao Exército, que os manteve amontoados em um depósito.

Acontece o seguinte: há um relato do 3º sargento, José Waldir Merçon, que serviu na Bateria de Comando da Artilharia da FEB que diz que tudo pegou fogo! 

“Entregamos nosso fardamento e ficamos sabendo depois – por meus irmãos que trabalhavam no material bélico em triagem – que nossas roupas formavam duas pirâmides (...) da altura de dois edifícios, ao ar livre. Pouco a pouco, foram baixando de altura, pelos freqüentes furtos e quando viram que estavam pequenas e teriam que explicar o fato, simplesmente fizeram duas fogueiras (...) Se eu tivesse sabido que nossas preciosas roupas americanas de pelúcia para enfrentar o inverno europeu teriam este fim, só devolveria o cinto, a arma e o capacete de aço” (blog Jornalismo de Guerra).

E é isto. Alguém imaginava algo diferente? 😟

Conclusão da visita - Nota 10!


O Museu do Expedicionário conta com um acervo muito grande não só de vestuários, mas de objetos, fotos e armamentos. São dois andares de exposição, ou seja, é bastante coisa para ver. Recomendo muito a visita!

Fazendo uma ponte entre o que foi visto lá e os relatos dos pracinhas, nota-se que o soldado brasileiro foi muito resiliente ao tentar se adaptar às situações impostas pelo planejamento ruim do governo brasileiro, que desconsiderou a importância da durabilidade, praticidade e do conforto das roupas cotidianas do soldado e da enfermeira.

Ao sair de pequenas cidades e vilas rurais, talvez o pracinha não imaginasse que um de seus piores inimigos seriam as condições climáticas. Ter roupas inadequadas certamente minava um pouco a vontade e esperança de quem estava lá. 

Ainda assim, foram valorosos na conquista de algumas montanhas e na rendição de soldados alemães. Sua participação na Guerra contra o fascismo deveria ser lembrada com mais destaque e reverência. 

Agora.....porquê não tem um museu deste em São Paulo é a grande pergunta 😌

Bibliografia:

Karine dos Santos. Os bastidores das batalhas: o cotidiano dos pracinhas brasileiros na Segunda Guerra Mundial. Monografia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2004.

Marcos Antonio Tavares da Costa. A Força Expedicionária Brasileira: memórias de um conflito. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal de Juiz de Fora, 2009.

Jornalismo de Guerra - blog  de Crônicas, histórias, notícias e relatos sobre o Brasil na II Guerra Mundial: www.jornalismodeguerra.com.br



You May Also Like

0 comentários

Instagram

- Todos os direitos reservados a Katiúcia de Sousa Silva - Por favor, não copiar o conteúdo desta página sem mencionar a autoria.