O crochê da década de 1910 - Bolsas da Belle Époque

by - novembro 06, 2020



O crochê é uma das técnicas mais populares praticadas no século 20, mas também uma mais injustamente criticadas atualmente. O que poucos sabem é que o crochê permitiu a criação de peças muito bonitas e intrincadas durante a década de 1910 (e antes, como também depois), as quais eram reais objetos de desejo.

Como este assunto é pouco conhecido, dedico carinhosamente este artigo às garotas que estão planejando construir seu guarda-roupa eduardiano, mas também à todas as crocheteiras que buscam inspiração em referências do passado 💓

O crochê na Era Eduardiana: a Belle Époque da técnica

O crochê se destacou muito durante a segunda metade do século 19, aparecendo em diversas revistas femininas de lazeres domésticos. São vários os objetos, desde artigos para casa como para o vestuário (blusas, redes para cabelo, rendas para aplicar em roupa branca e mesmo corsets). 

(mas calma, vamos falar do crochê vitoriano em outro artigo 😉 )

Na década de 1910, ela ganha um novo gás e uma das peças que mais aparecem são as bolsas. Pequenas e delicadas, estas bolsas serviam para carregar coisas pequenas, tanto no dia-a-dia, quanto para ir à opera/teatro.
1912: três figurinos, sendo dois deles com bolsas que se assemelham
em tamanho e estilo às bolsas de crochê deste artigo.
Fonte: McCall's Magazine Fashions, 1912.

As receitas para estas bolsas apareceram em várias publicações durante os anos 1910s. Hoje vamos conhecer alguns modelos do livro "Glossilla Book of Crochet Novelties (1912-13)"(clique no link para ver completo), como também alguns exemplares da revista Home Needlework Magazine, ambas americanas e disponíveis online.

O objetivo era carregar pequenos objetos, como lenços e moedas. Por conta disso, elas não eram muito grandes, alcançando cerca de 25 cm. E quanto maior o grau de "elaboração" da peça, mais adequada a bolsa de crochê ficava para eventos sofisticados e noturnos.

A bolsa abaixo é um padrão simples de 1913, feito em algodão (mas a receita recomenda seda, caso se queira algo mais elaborado). A sua descrição diz: 

    "A moda feminina deve ter seu próprio caminho, mesmo nas bolsas. 
Na página anterior, é mostrada uma dos novos modelos maiores, 
adequados para quase qualquer costume; é muito bonita e fácil de fazer".
 

1913: bolsa de crochê com franjas.
Fonte: Home Needlework Magazine

Materiais e tamanhos: algodão e seda

Graças às receitas preservadas e alguns exemplares mantidos em museus, sabemos que os materiais mais utilizados eram o fio de seda e o fio de algodão. Como eram bolsas de trama aberta, a maioria delas era forrada com seda pura também.

Quanto às cores, muitas delas eram brancas ou em cor marfim, mas as receitas também sugerem que a bolsa combine com a roupa que a felizarda deseja combinar, ou seja, poderiam também ser escuras.

Bolsa de crochê da década de 1910s, em fio de algodão e forrada com seda
Fonte: vendida por MsTips (Etsy)

Um caso curioso é que as bolsas sugeridas pelo livro da Glossilla utilizavam um fio metálico, nas cores dourado, alumínio, ouro velho e prata velha. O exemplo abaixo é feito com dois materiais: algodão e um fio metálico e dourado de chenille que compõe as flores.

1912: Bolsa de crochê em chenille metálico. 
Fonte: "Glossilla Book of Crochet Novelties (1912-13)",
 disponível no Archive.org


Retículas, bolsas de dedo e uvas

Os modelos de bolsa de crochê apareciam em, pelo menos duas categorias. Uma delas é a chamada "retícula", cuja definição indica que é uma bolsa com um cordão. Estes cordões, nas bolsas de 1910s, poderiam ser:

  • cordões literais, feitos de seda;
  • uma fita de seda;
  • um cordão crochetado, como no modelo abaixo.

1912: Retícula de crochê com união de quadrados.
Fonte: "Glossilla Book of Crochet Novelties (1912-13)"
disponível no Archive.org



Outra categoria comum eram as "finger bags", que traduzo literalmente para "bolsas de dedo". Elas tinham  um pequeno aro de osso ou madeira onde se colocava o dedo. Este aro era recoberto com pontos baixos de crochê e então unido à bolsa por cordões.

Estas bolsas não devem ser confundidas com aquelas que se penduravam nos cintos. Elas existiam em crochê também nos anos 1910s, mas tinham dois pontos para pendurar. A foto abaixo é de uma das "bolsas de dedo". A primeira bolsa deste artigo também se enquadra nesta categoria.
1913: Bolsa de dedo em crochê.
Fonte: Home Needlework Magazine


Por fim, algo que aparece muito nestas bolsas são pingentes de frutas, feitos em crochê mesmo. O Glossilla Book é bem claro: são, especificamente, "uvas". Mas porquê uvas? 

Fiz uma breve pesquisa sobre o significado destas frutas no imaginário vitoriano, e um deles é que uvas simbolizam fertilidade, hospitalidade e caridade, três valores frequentemente associados à figura feminina.
1912: Bolsa de ópera, em crochê irlandês, com uvas. 
Fonte: "Glossilla Book of Crochet Novelties (1912-13)" 
disponível no Archive.org


Crochê Irlandês: um caro objeto de desejo

O Crochê Irlandês era uma variação similar à renda, formando uma trama fina e elaborada que imitava a Renda Veneziana, sobrepondo motivos crochetados em separado, como flores e folhas. Embora não seja considerada uma renda verdadeira, foi uma moda muito forte e muito cara, reservada mesmo aos bolsos mais afortunados.

E ainda havia uma variação, chamada "Crochê Veneziano Irlandês" que, na realidade, não diferia muito do Crochê Irlandês real.

Em 1913, a revista cita:

        "O crochê veneziano irlandês não é tão conhecido nos Estados Unidos 
como as variedades de guipir, mas alguns dos designs dessa linda renda 
rivalizam com a própria renda irlandesa, e é quase tão caro quanto."



Abaixo dou um exemplo do que é o Crochê Irlandês produzido em 1910s.

Blusa de crochê irlandês. 
Fonte: Museum of Applied Arts.


Outro exemplo curioso é a bolsa de crochê apresentada na revista Home Needlework Magazine em 1910: esta revista apresentava receitas para usar ou vender, inclusive sugerindo preços de revenda. 

Veja, esta bolsa abaixo tem um preço sugerido de 50 dólares! Esse valor já era algo altíssimo para a época. Repare na comparação: outras bolsas mais simples, de tecido ou de couro, custavam em média 5 dólares no catálogo da loja Sears (clique no link para ver o exemplo). 

E a nossa bolsa de crochê custava 10x mais, o que indica que: se você não soubesse crochetar, ter uma bolsa de crochê seria como ter um artigo de (quase)luxo.


1910: Bolsa de Crochê Irlandês, medindo 25cm x 27,5 cm.
Fonte: Home Needlework Magazine

Estes 50 dólares aí não são os de hoje (que convertidos dariam R$278), mas os dólares corrigidos (com a inflação) do ano de 1910 para 2020, que dariam $1340 ou R$7340,00!

O valor corrigido é absurdo, mas é só pra você ter uma ideia de que o crochê tinha um valor diferenciado em relação aos demais produtos.

E então, inspirada para fazer sua bolsa de crochê?

Alguns destes modelos são bem fáceis de fazer seguindo a receita ou, para as mais experientes, no olhômetro 😊 outras já exigem mais do que experiência, mas um treinamento específico, no caso do Crochê Irlandês, que é um desafio para poucas (já viram como têm pouca gente que pratica esta modalidade?).

Seja um caso ou outro, todas estas bolsas são adoráveis e combinambem com qualquer roupa moderna. Quem não gostaria de ter uma na qual caiba o básico? Cartão de banco, celular pequeno e a bisnaguinha de álcool em gel? Hoje não precisamos muito mais que isso.

Espero que este artigo tenha inspirado vocês ou, ao menos, ajudado a conhecer um aspecto da moda do século XX. Se você gostou, comente e compartilhe! Não vai se esquecer! 😇😆




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