O conjunto de toucador e o Garoto Azul: um pouco de História da Arte do século 18

by - julho 23, 2020


"O Garoto Azul" pode ser considerado a Monalisa inglesa.

Tenho alguns conjuntos de toucador vintage que trouxe da Escócia em 2019, e um deles realmente me intrigou. Um jovem garoto vestindo uma roupa azul. Procurei na internet, mas sem muito resultado.

Optei por vender este conjunto e então, a moça à frente do @antigona.brecho deu a dica: a impressão é uma reprodução do quadro "The Blue Boy", de Thomas Gainsborough, pintada no século 18.

Meu conjunto de toucador. É difícil estimar a idade exata, mas eu diria que está entre 1930 a 1960.
Pesquisei e fiquei surpresa com a importância desse quadro para a história da arte inglesa! O mais legal disso foi notar como um objeto considerado kitschy, que fazia parte do enxoval feminino, pode trazer conhecimento cultural e mesmo de moda. É só puxar o fio pra descobrir. 

A pintura e o garoto


O quadro "The Blue Boy", ou "O Garoto Azul", é uma pintura à óleo exibida pela primeira vez em 1770, na Academia Real de Londres. O nome original, dado pelo pintor Thomas Gainsborough, era "Portrait of a Young Gentleman" ou, em português, "Retrato de um Jovem Cavalheiro".
1770: quadro "The Blue Boy", de Thomas Gainsborough
O quadro é considerado uma homenagem ao admirado pintor holandês Anthony Van Dyck, o mestre do barroco flamengo. O "Garoto Azul" lembra a pintura que Van Dyck fez do rei Charles II quando criança, como mostra a imagem abaixo.

Van Dyck viveu entre 1559 e 1641, portanto a roupa do Garoto Azul retrata as roupas infantis da nobreza desse período, ou seja 140 anos antes dele ser pintado.
1637: Charles II quando criança, pintado por Van Dyck.

Muito se discute sobre quem é o garoto retratado em "The Blue Boy". E não, ele não era membro da família real inglesa como o garoto em vermelho retratado por Van Dyck, apesar das semelhanças.

Acreditava-se então que era um retrato do primeiro proprietário do quadro quando criança: Jonathan Butall, filho de um rico comerciante e também um amigo da família. Porém, essa hipótese não está comprovada e hoje defende-se que os sobrinhos do pintor tenham sidos os modelos.

A roupa e o modelo

O Garoto Azul veste um gibão e calça de cetim azul, enquanto segura uma capa e um chapéu de abas largas emplumado. Minúsculos botões fecham a frente do corpo. Punhos e uma gola branca de renda (um produto caríssimo na época) contrastam com o azul e as longas meias alcançam o joelho, onde são amarradas por laços.

Gainsborough desafiou as tendências de pintura vigentes na época: colocou cores frias, como o azul e o prata em evidência contra um fundo escuro. A moda na arte do momento era destacar os personagens com cores quentes, como o marrom e vermelho.

Outros pintores de sua época (como Joshua Reynolds) buscavam pintar retratos com roupas que remetiam à Grécia clássica e ao Renascimento (vestidos leves e esvoaçantes), mas Gainsborough preferia adotar roupas contemporâneas. 

Visando se inspirar em Van Dyck, Gainsborough criou uma solução: vestiu o Garoto Azul com um traje considerado apropriado para um baile de máscaras na década de 1770 (mas que era considerado cotidiano para a nobreza em 1630s). Essa roupa remetia ao passado e, ao mesmo instante ao presente, e assim ele poderia lembrar Van Dyck sem fugir do seu tempo.

O pintor fez outros quadros, retratando seus sobrinhos com a mesma roupa! O traje azul aparece nos retratos de Edward Gardiner (feito em 1760, antes do Garoto Azul) e no de Gainsborough Dupont (feito em 1773, depois do Garoto Azul). Inclusive, este último sobrinho se tornou seu aprendiz e assistente de estúdio.

1773: Gainsborough Dupont, sobrinho do pintor, que foi aqui retratado com a mesma roupa do "Garoto Azul"


O Garoto Azul no mercado de arte e na cultura popular

O quadro passou por várias mãos do século 18 ao 20:
  • 1770 a 1796: pertence a Jonathan Buttle, amigo do pintor Gainsboroughm, que o manteve até sua falência;
  • 1796: comprado pelo político John Nesbitt;
  • 1802: comprado pelo pintor retratista John Hoppner;
  • 1809: comprado por Earl Grosvenor, permanecendo por mais de 100 anos com sua família;
  • 1921: vendido pelo segundo Duque de Westminster, descendente de Earl Grosvenor.
A última venda foi feita ao negociador de arte Joseph Duveen em 1921 e é aí que o cenário muda. Este negociador fez várias exposições do quadro na Galeria Nacional de Londres, com o objetivo de divulgar uma grande venda, apelando inclusive para o lado sentimental da imagem para a população.

Sabendo disso, cerca de 90.000 pessoas (um número considerável para a época) foram visitar estas exposições, já que a pintura era muito querida e aquela poderia ser a última oportunidade: ela poderia sair da Inglaterra.

1921: o quadro em exposição na Galeria Nacional de Londres, antes de ser vendido.
Fonte: The Huntington Files - The Blue Boy
E foi o que aconteceu: o quadro foi comprado pelo casal americano Henry e Arabella Huntington, que o levou para a Califórnia e o manteve em sua coleção privada.

O valor negociado foi de $728.800 na época, o que daria em torno de 10 milhões de dólares (ou 50 milhões de reais) em valores de hoje,se tornando a obra de arte mais cara até então. 

A partida do quadro icônico gerou vários sentimentos nos cidadãos britânicos: raiva, lamento e tristeza. É como se o "Abaporu", da Tarsila do Amaral, fosse vendido para os Estados Unidos (na verdade, já foi vendido, mas para um argentino 😥).

Algumas hipóteses dizem que esses sentimentos derivavam do lamento ainda sentido pela Primeira Guerra Mundial: muitos rapazes ingleses partiram sem voltar, e a imagem de um rapaz jovem e bonito abandonando o país reacendia estes sentimentos, além do patriotismo.

A partir daí, vários objetos foram criados com a imagem do Garoto Azul: pratos, cerâmicas, colheres, fronhas e, inclusive, conjuntos de toucador, como o que eu tenho :) tornando a pintura um ícone da cultura pop inglesa.

Miniaturas do Garoto Azul.
Fonte: The Huntington Org

Para saber mais!

Hoje o quadro está na Huntington Collection, que o mantém em exposição desde 1921 e realiza  ações de conservação e restauro.

Lá no site deles, clicando aqui, você pode encontrar mais informações sobre este quadro emblemático e vários vídeos sobre raios-X e outras processos que descobriram os desenhos ocultos abaixo da versão final.

Espero que tenham gostado! Se sim, deixe um comentário e compartilhe meu artigos nas redes sociais :)





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