Jornal das Moças de 1939 - Moda dos anos 1930 e...como é difícil colecionar revistas

by - abril 23, 2020


Colecionar revistas antigas pode ser algo bem complicado. 

Porquê?

Porque o vendedor pode ser legal e explicar no anúncio todas as características do produto, incluindo os defeitos ou.....não. A maioria não explica ou responde o mínimo, e é aí que quem coleciona podem se dar bem ou se lascar total.

Por outro lado, tem comprador que...nossa senhora! São 10 ou 15 perguntas sobre o mesmo produto! Já passei por isso: é um tempo que não vale gastar e não dá nem vontade de vender, sério.

Mas vamos à história de hoje: uma das minhas últimas compras foi no escuro. Isto significa que o produto não tem foto, não tem troca, não tem reclamação, não tem direito a ligar para o advogado. 

O objeto de desejo: uma revista Jornal das Moças de 14/setembro/1939, edição 1265, com uma capa maravilhosa que não consta no arquivo da Hemeroteca Digital Brasileira. Aliás, a cópia lá disponibilizada não está nem completa. Eu teria uma completa? Taí a questão 😅😅

A capa: a atriz americana Irene Hervey (1909-1998), em foto promocional distribuída pela Universal. Eu não sou fã de filmes antigos, mas parece que ela teve uma carreira bem sucedida entre os anos 1930 e 1950. O figurino da capa é a cara do final dos anos 1930, que respirava o fim da criatividade do movimento art-dèco, sufocado pelo conflito da Segunda Guerra Mundial.

Irene Harvey, Jornal das Moças, n.1265, 14/09/1939 (acervo pessoal)
Bom, Irene veste um vestido escuro (talvez preto, ou azul-marinho, ou bordô) com listras brancas que começam horizontais nos ombros, mas são verticais no corpo e na saia. As mangas têm ombreiras e seguem a tendência da época ao terminar um pouco acima do cotovelo. O decote é bem modesto e o comprimento da saia  termina abaixo do joelho. 

Como acessórios, o cinto é o que chama mais a atenção: o desenho lembra duas conchas estilizadas, unidas por uma fivela quadrada de baquelite. Muito inventivo! O chapéu é de feltro, dobrado e derrubado para a direita, muito em voga também. Ela usa uma flor gigante na lapela, uma pulseira fina e um anel. Para fechar, uma sandália preta de couro vazado, mostrando apenas um pedacinho da frente e de salto alto e fino. Eu acho este sapato totalmente usável hoje, em 2020s. Veria ele fácil em alguma vitrine!!!

A capa ainda informa que a revista acompanha o molde deste vestido. Mas aí seria sorte demais para uma revista dos anos 1930, e esta já nem espero.

Outra coisa é que procurei por esta foto da Irene Hervey em toda a internet e não achei. Então é "inédita" 😄😄

E aí, a decepção: todo o suplemento do "Jornal da Mulher", aquele que vem com figurinos e dicas de moda, simplesmente foi arrancado em algum momento dos últimos 80 anos!!! De um total de 76 páginas, vieram só 40!!! Não tô nem falando dos moldes, estou falando do cerne da revista. Só vieram as páginas desinteressantes: eventos sociais, receitas, propaganda, esse tipo de coisa.

Nestes últimos 3 anos colecionando revistas raras de moda, nunca na história desse país uma revista chegou tão pelada. E não dava pra reclamar, apesar de eu querer pegar alguém na unha naquele dia.

Bom, então vamos falar do que é aproveitável nesta edição: a capa e a contracapa rsrs no fim, extraí leite de pedra, mas olha....!! 😋😋


Estampados, Rendas e Flores: eis a moda!

A contracapa é uma das ilustrações mais interessantes que já encontrei no Jornal das Moças.  São quatro figurinos para vestidos femininos que destacam toda a feminilidade, opulência, técnica das roupas dos anos 1930. Infelizmente não há crédito para o(a) desenhista.


Vestidos da moda: Jornal das Moças, n.1265, 14/09/1939 (acervo pessoal)

Para quem gosta de ler descrições de vestidos antigos, lá vai! 

O vestido n.1 é feito de crepe estampado floral e adornado com crepe liso na barra e em algumas partes das mangas e corpo. O decote é fechado por 5 botões e marcado por microbabadinhos de organdi, que também cercam a gola Peter Pan e a barra das mangas bufantes. A cintura é pregueada, ao invés de usar cinto. Chapéu de palha com fita e flores. 

O vestido n.2 é feito em sarja estampada com bolinhas (qual é o nível de dificuldade de achar um tecido semelhante a este HOJE?). O decote também é lá em cima, fechadão. O diferencial é que ele é decorado com rendas valencianas em babadinhos de novo, assim como as mangas. Uma série de botões aparece na área da cintura. E a saia é 100% pregueada.

O vestido 3 é o que gosto mais: o tecido é um crepe com estampa floral. As mangas são drapeadas, assim como o decote. A técnica parece complicada. Nos ombros há dois laços cor-de-rosa. A cintura é marcada por nervuras também e, ainda assim, fechada por um cinto estreito. Arrisco dizer que a saia é cortada no viés. A figura que mostra o vestido atrás indica que há uma fileira de botões nas costas. Eu gosto bastaste do chapéu também: parecem microflores de feltro, brancas e rosas.

Para fechar, o vestido 4 parece o mais simples: novamente a sarja, mas estampada em preto e branco. A gola é quase Peter Pan e o decote é fechado com ilhoses e um laço de veludo preto. Há babados ao longo dos decotes e nas mangas. A saia tem quatro pregas na barra, uma de cada lado. O cinto de veludo é encaixado em um passante largo. 

Os chapéus merecem um item à parte.

É... apenas observar todos estes detalhes já me deixou cansada 😴😴 vê como a moda dos anos 1930 não dá pra ser simplificada? Ela é o que é: quase exagerada, mas equilibrada. Cheia de técnicas, modelagens estranhas, tecidos nobres e estampas inesperadas e coloridas....é uma moda fabulosa, rica, que se prendia aos pequenos detalhes e que dava holofotes aos verdadeiros e verdadeiras mestres da costura. E não estou falando só dos costureiros famosos. 

Tô falando mesmo das modistas e costureiras desconhecidas da época que se atreviam a encarar um figurino desse quando a cliente chegava no ateliê com uma revista na mão. Meus parabéns, minhas caras, porque olha....😅😅

Como se tudo fosse tão fácil....reconstruir um vestidos desses é um desafio, um trabalho artesanal de fato. E é por isso que até hoje são poucas as costureiras vintage no mundo (!) que realmente recriam roupas dos anos 1930, sem simplificações, sem atalhos, sem tecidos fuleiros: roupas que são "réplicas quase autênticas".

Porque né...que década difícil: a moda é complexa pra caramba!!!!

Vamos respeitar aê.

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No fim: poutz, que sorte de ter comprado esta revista!






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1 comentários

  1. Oiii !! Conheci seu blog a pouco tempo . Estou amando amo roupas anos 40 e 50 ! ( Passei a amar 30 por causa de você;-)) continue postando !!

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