Balancim para forrar botões: propagandas brasileiras das décadas de 1930s e 1940s

by - abril 10, 2020


Não resisti e recriei essa propaganda de 1945 :D

Recentemente fui obrigada a comprar um balancim.

Bom, o balancim é uma ferramenta multiuso meio que fundamental para as costureiras. É muito usado para forrar botões por meio de pressão, mas também serve para colocar ilhoses e rebites, furar cinto, entre muitas outras funções...desde que você tenha as matrizes para cada uma delas. 

Eu estava meio preocupada de ter uma ferramenta relativamente cara e que não pudesse garantir um uso "historicamente correto". Quero dizer: para quê vou ter isso se não sei se era usado no meu período de estudo, que são as décadas de 1920 a 1950? Comprei meio que à contragosto.

Roupas com botões forrados existiam nos anos 1930 e 1940, como você pode ver na blusa abaixo. Eu só não sabia como esses botões eram cobertos: se 100% manualmente ou com o auxílio de algum equipamento.

Blusa com botões cobertos com a mesma renda da peça, anos 1930/1940s
Fonte: The Starlets Stylist (Etsy)

Até então, todos métodos que conhecia eram manuais, porém o resultado não fica lá essas coisas. Entretanto, lendo o Livro da Costura Singer (1949/1957), um trecho me intrigou:

"Se você mesma quiser fazer os botões, compre as fôrmas nas lojas de armarinho, do tamanho que quiser, ou use os apetrechos de confecção de botões".

Aí matei a questão. Se existiam estes apetrechos nos Estados Unidos onde o livro foi escrito, eles também tinham que existir no Brasil!!! E aí fui pesquisar registros nas revistas antigas. Mais especificamente no arquivo digital do Jornal das Moças, disponível na Hemeroteca Digital Brasileira.

 E então achei o tal do balancim!!!!  😃😃😃

1. Primeira ocorrência: Casa Ratto/Julio Marques de Souza (Rio de Janeiro, 1936-1940)

Julio Marques de Souza era o proprietário da Casa Ratto. Aparentemente era uma loja do estilo armarinho, que vendia tecidos, aviamentos e amostras de bordado. Além disso, tinha bordadeiras que faziam o ponto cruz e o ajour por encomenda. Ah, e também plissavam tecidos e bordavam à máquina! A loja dos sonhos que não existe mais.

Ela se situava no Rio de Janeiro, mais especificamente na rua Gonçalves Dias, 47. 

De 1936 a 1938, a Casa Ratto fez propagandas no Jornal das Moças sobre a grande novidade: a "Machina Manual para forrar botões - Muito útil para modistas". Repare nas roupas e cabelo da modista ao operar o próprio equipamento, um balancim de alavanca giratória, apresentado na imagem abaixo.

1936: "Pequenas oficinas para cobrir botões"
Fonte: Jornal das Moças
Em 1939 e 1940, a Casa Ratto muda a arte gráfica. Curioso que o nome da loja não é apresentado, mas apenas o de seu dono e o mesmo endereço. O que será que deve ter acontecido?

1939: o mesmo dono, mas sem identificação da Casa Ratto.
Fonte: Jornal das Moças

Em 1940, a arte gráfica muda novamente. Repare uma coisa: nas três propagandas apresentadas, os balancins são de alavanca giratória, ao invés de pressão (como o meu). O resultado provavelmente é o mesmo, e estes giratórios ainda existem no mercado.

Porem, o balancim da propaganda abaixo é o mais compacto e diferente de todos. Veja como ele é quadradinho e pequenininho. Adoraria encontrar um semelhante em algum antiquário/loja de antiguidades!

1940: de repente, uma "pequena indústria caseira".
Fonte: Jornal das Moças

2. Segunda Ocorrência - Oficina de Angelo Antonio Armengol (São Paulo, 1937-1939)

Esta ocorrência se trata da oficina de Angeli Antonio Armengol, localizada em São Paulo (em três  endereços distintos).

Diferente da Casa Ratto, ele não aposta em nenhuma arte gráfica, mantendo um anúncio por escrito. Portanto, não sabemos como era o modelo de balancim produzido. Sua propaganda apareceu poucas vezes na revista Jornal das Moças.

Em 1937, no anúncio abaixo, ele diz: "Toda costureira pode cobrir botões em sua própria oficina, evitando assim a perturbação de mandar cobrir e poderá fazer economia."

1937: fábrica do sr. Armengol
Fonte: Jornal das Moças

Porém, o nosso amigo Armengol nos fez um grande favor: em uma edição do jornal Correio Paulistano, em 1939, ele anuncia uma descrição completa do botão em si! É esta propaganda abaixo:

1939: propaganda do botão forrado.
Fonte: Correio Paulistano

Segundo ele, sua fábrica produz um tipo de botão com "pé furado com virola", que é a alça, que evita de cortar a linha que prega o botão na roupa. E além disso, os botões são niquelados, evitando ferrugem! Anúncio bom é anúncio que mostra vantagem!

O que ele esclarece? Que os botões antigamente eram de encaixe de metal (o de trás) e, por isso, meio afiadinhos e, portanto, deviam cair da roupa rápido. Hoje este encaixe é de plástico e, assim, não cortam a linha.

E ele ainda fala que seus botões eram niquelados, evitando ferrugem, porque os de ferro enferrujam. Até hoje.

Obrigada, senhor Armengol! O senhor é um anjo!!!

3. Terceira ocorrência: Julio Samuel/ Fábrica ARSA (São Paulo, 1939-1958)

Já esta ocorrência é muito variada em relação à arte gráfica.

Em 1939, aparece a primeira propaganda da oficina do seu Julio Samuel. É a próxima figura a seguir. Ela é bem simples e objetiva, mostrando o modelo do balancim: novamente, uma peça de alavanca giratória.

Repare que a oficina funciona na Avenida Rangel Pestana, no bairro do Brás em São Paulo, assim como a fábrica do sr. Armengol.

Esta avenida é muito conhecida, até hoje, pela produção de artigos para estofados e artefatos de couro, e por ali há também lojas para atender quem trabalha com maquinário adequado pra isso. Ou seja, tradição!

1939: balancim do sr. Julio Samuel.
Fonte: Jornal das Moças
Já em 1940, o seu Julio Manuel muda o nome da fábrica para "ARSA".

A propaganda de 1940 muda um pouco: o balancim é um pouco diferente e tem o nome da empresa estampado na ferragem. E o mais importante: botaram uma mulher na foto pra deixar o produto mais atraente (??!).

1940: balancim da Fábrica ARSA
Fonte: Jornal das Moças
Em 1945, mais uma alteração: uma mulher com visual mais atualizado, com os cabelos mais longos em relação à anterior de 1940 (que estava com os cabelos mais curtos e baixos, na moda naquele ano). Esta é a minha ilustração favorita! 

(não é à-toa que a recriei lá em cima, você percebeu? HAHAHA)

O balancim permanece com o mesmo design. Será que isto indica que seria fiel ao modelo vendido na loja? Pode ser.
1945: a propaganda mais bonita da Fábrica ARSA.
Fonte: Jornal das Moças

Em 1946 a Fábrica ARSA muda a imagem da mulher novamente (figura abaixo), permanecendo com ela até 1958. E o balancim permanece o mesmo.

Um detalhe: agora ele fabrica também grampos de cabelo: loiros, castanhos e pretos.

Eu nunca vi um grampo castanho.


1946: botões, balancins e grampos de cabelo.
Fonte: Jornal das Moças

Resumo da ópera: o balancim é "historicamente correto"!

Então, para a moda das décadas de 1930 e 1940, o balancim vale! Pode fazer o botão com ele HAHAHA eu permito!

Não consegui descobrir exatamente quando esta ferramenta apareceu, mas o Jornal das Moças não mostrou nenhum registro antes de 1936. Pode ser ter surgido muito antes (encontrei referências que chegam ao começo do século 19), mas não fui a fundo porque né.... chegaremos às pirâmides do Egito 😅).

Aliás, vou contar um segredo pra vocês: achei anúncios de 1908 em outros jornais (porém sem fotos, então não sei se eram modelos como estes). Mas isso fica para outro texto!

Acredito que o efeito é o mesmo entre o balancim de alavanca de pressão (o meu) e o de alavanca giratória (os de época). Lá no SENAC onde estudo atualmente há alguns giratórios da Graziano. Vou até dar uma olhada!

Só tem uma diferencinha: naquela época os botões eram de metal, e hoje são de metal e plástico. O mundo mudou, desculpa, paciência.

Uma outra coisa que não deu ainda pra descobrir é QUANDO ele deixou de se chamar "máquina para forrar botões" para se tornar um balancim. Esse nome não retorna nada nas buscas. E bom, aí são mais 3 dias de pesquisa RsRsRs

Então, pessoal: espero que tenham gostado do texto! Um dos objetivos deste blog é falar de coisas obscuras relacionadas à História da Moda do Brasil, o que inclui memória têxtil e de pequenas fábricas, modistas e pessoas desconhecidas aqui da nossa república. Fazia tempo que não escrevia assim e gostei muito.

Porque Roupa É Cultura.

Obrigada pela leitura e aquele abraço!!!

You May Also Like

4 comentários

  1. Bom, um depoimento somente: quando criança, minha mãe me mandava levar botões para forrar nos armarinhos do bairro. Na verdade, ir ao armarinho era uma tarefa quase que semanal, fosse para forrar botões, comprar aviamentos, levar fronhas e lençóis para fazer aqueles furinhos nas barras (não sei que nome tem aquilo), trocar coisas erradas (e como se trocava mercadorias!) etc. Acabou. Virou história. Obrigado pelo blog, que lei com muito gosto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Paulo, agradeço pelo seu depoimento esclarecedor!

      De verdade, eram outros tempos. Hoje em dia, a relação com os armarinhos é bem mais mecânica, quando não virtual. Trocar algo, imagine...adoraria que estes contatos voltassem a ser como antigamente: um pouco mais humanos :)

      Excluir
  2. Eu amei o texto!! Que coisa maravilhosa!!!!

    ResponderExcluir

Instagram

- Todos os direitos reservados a Katiúcia de Sousa Silva - Por favor, não copiar o conteúdo desta página sem mencionar a autoria.