O Livro de Costura SINGER: um manual de Costura Histórica para entusiastas vintage

by - março 30, 2020




Um dos meus livros de cabeceira!

Além de revistas de moda antigas, coleciono livros de costura e modelagem pré-1960, que me ajudam a entender os processos de construção de uma roupa do passado. A tal da Costura Histórica. 

Vou compartilhar aqui uma dica de livro que é muito útil para os entusiastas vintage que querem começar nesta trip.  Ele tem uma oferta relativamente boa em sebos e está traduzido para português: o Livro de Costura SINGER.

Mas antes.....

Primeiro: o que é Costura Histórica +/-?

De maneira ampla: é a recriação de uma roupa/acessório do passado usando técnicas/ferramentas/ materiais iguais ou similares à aquelas executadas em determinado momento da História. 

A meta é fazer uma peça da maneira mais próxima possível da que uma modista, alfaiate ou dona-de-casa faria no passado. Seja no século XVIII, seja na década de 1940. Uma roupa que carregue História em seu modo de fazer (mesmo que seja nova), e que seja o espelho de um tempo, com o mínimo de adaptações modernas.

E para isso, é preciso estudar estas técnicas, que são muitas.

Overloque, galoneira, poliéster não entram nesta conta (pelo menos até o fim dos anos 1950). Isso porque a ideia não é terminar o mais rápido possível, ou baratear custos, ou fazer com um tecido que não amasse, mas sim aplicar o processo vintage do começo ao fim para entender como funcionava! E claro: fazer uma rouppa/acessório que pareça autêntico, e não apenas inspirado.

Fazer uma peça com um molde vintage e costurá-la na overloque com um crepe de poliéster, por exemplo.... Pode? Claro que pode, a roupa é sua. Mas não é Costura Histórica ou Vintage: é costura.

São poucas as pessoas que praticam a Costura Histórica aqui no Brasil, e quando se fala em costura do século XX, menos ainda. Talvez umas três? O assunto é pouco divulgado/conhecido, é meio nerd....mas há instituições que buscam este tipo de trabalho para ajudar a compôr seu acervo de indumentária. Ou mesmo Reenactors. Mas aí é outro assunto ;)

E é aqui que entra o Livro de Costura SINGER (!!!!!!!!). 

1) O LIVRO: o quê, quem, onde, quando

O "Livro de Costura Singer" foi escrito por uma mulher que revolucionou o ensino da costura nos Estados Unidos: a Mary Brooks Picken (1886-1981). Dos anos 1910 aos anos 1950, ela publicou mais de 50 obras relacionadas a tecidos, modelagem, costura e História da Moda. 

Ela era considerada uma autoridade no assunto, participando como membro fundadora do Metropolitan Museum od Art's Costume Institute, inserido no MET Museum....não era pouca coisa não! 

Não consegui localizar qual é o ano da primeira edição do Livro de Costura SINGER, mas a minha foi publicada em 1957. Porém, pela vasta experiência da autora, ele reúne técnicas utilizadas ao longo de toda a primeira metade do século XX (e antes, é claro).

Quais as vantagens deste livro:
  • variedade de pontos e acabamentos, feitos à mão ou à máquina;
  • muitas ilustrações em tamanho grande;
  • explicações detalhadas e demonstrações de como aplicar as técnicas.
Técnicas para inserção de renda.

Tenho alguns livros de costura modernos que não me satisfazem tanto assim: tudo muito resumido, desenhos muito pequenos, pouca variedade de técnicas.....creio que é porque a indústria não tem mais interesse em fazer roupas com técnicas demoradas e a moda se tornou mais minimalista e prática (sem bordados, sem pences, sem aplicações..)....consequentemente, estas técnicas se perdem no tempo e nos livros modernos.

Por outro lado, algumas técnicas podem parecer ultrapassadas devido ao avanço tecnológico. Neste caso, recomendo que voltemos aos princípios e metas da Costura Histórica acima 😅😅

2) CONTEÚDO: costura à mão e costura à máquina (SINGER, é claro!)

Bom, este livro é uma encomenda da SINGER. Embora eles não me patrocinem (😂por favor😂), cabe dizer que a Mary Brooks o escreveu demonstrando como aplicar as técnicas à mão, mas também com pés calcadores vendidos pela empresa para serem colocados nas máquinas. Nos anos 1950, a costura com máquinas caseiras já era uma prática bem estabelecida nos lares de todo o mundo e muito disso deve-se à Singer ter produzido vasto material e mesmo escolas em várias cidades, o que levou à prática a se popularizar.

Não é à-toa que existe esta tradução para o português.

Porém tem uma coisinha: a máquina não fazia tudo! Então muitas etapas eram manuais :)

Bem, vamos ao livro...o texto começa do começo: dicas de materiais para costurar em casa, de como tirar as próprias medidas e de como alterar moldes prontos (vindos em revistas ou envelopes).
Ajustes de moldes de acordo com características do corpo.
Entretanto, atenção: o livro não ensina a modelar uma roupa. Aí é com o torcedor!!! HAHAHA mas a alteração de padrões é um tópico importante, visto que quase não aparece em livros lançados no Brasil antes de 1960 (sério, não sei como nossas avós aprendiam).

Sobre as técnicas de costura à mão: muitas delas a gente não vê em roupas modernas. 

Entre elas, o livro ensina: como fazer diversos tipos de franzidos, costura em festão, casa de abelha, aplicação de renda à mão, bainha aberta, pespontos, matelassê, casa de botão à mão (muito mais bonito que à máquina!) e até como colocar um botão corretamente (sim, há um jeito certo!). 

Como fazer pregas, nervuras e esta finalização de "ondinhas" que tanto aparece nos vestidos dos anos 1950 ♥ 
Quando dá tempo, eu gosto de pegar alguma técnica para testar em retalhos. Abaixo é uma amostra de ponto casa-de-abelha 😇

Amostra de ponto casa-de-abelha, também conhecido como smock.
Um outro tópico importante ensinado no livro são as peças acessórias da roupa, como bolsos (visíveis ou embutidos) e cintos e como recortar e aplicar vistas e revéis. Já o capítulo que ensina a colocar zíperes ou colchetes ou botões nas saias e vestidos revela um nome curioso: naquela época, este fechamento se chamava "maneira". Hoje usamos zíper em quase 100% das coisas e esta nomenclatura se perdeu no vocabulário do tempo 😊

Fechamentos de saias com botões de pressão e colchetes. Repasse no vocabulário: "maneira".

Entre as costuras à máquina, o livro define um número bem razoável de técnicas. Além da costura simples/zig-zag/francesa/inglesa, são destacados outros tipos como "costura debruada", "costura trou-trou" e por aí vai. O desafio é tentar entender para quais fins servem cada uma, mas tem muitos desenhos e geralmente a Mary Picken explica para quais tecidos servem e porquê. 

Alguns tipos de costura para junção de partes.
O capítulo "Costura de Alfaiate Bem Feita" dá a indicação correta de como fechar saias corretamente e em detalhes. Ainda mais do que isso, ensina como fechar paletós e casacos forrados. Taí uma coisa complicada que eu não sei fazer, mas logo quero testar.

Demostrações de como aplicar forro interno e entretelas de gola.

Na ocasião, a SINGER já tinha diversos pés calcadores, mas muitos deles estão fora de uso ou foram melhorados neste pequeno intervalo de 62 anos 😌entre eles está o Caseador de Botões. Segundo o livro, este pé tem 5 graduações, de 8 mm a 3 cm que "é muito cômodo, eficiente e economiza tempo". Basicamente, é uma caixa que contêm diferentes peças que ajustam o tamanho e tipo de casa de botão e é, sem seguida, acoplada à máquina. Este é um caso de coisa que melhorou com o tempo, porém, os nossos atuais pés calcadores não fazem a casa "redondinha" como se fazia no passado....fica reto.


Calcador para casa de botão SINGER.
Esse modelo está ultrapassado em relação aos que usamos em 2020, mas fazia casas de botão mais bonitas.


3) Outros detalhes curiosos

"Use batom"

O livro dá conselhos para costurar melhor, dentro de uma perspectiva "mental" e "física". 

Mentalmente, era preciso ter vontade de fazer algo bonito. Muito OK. Mas também era importante lavar a louça e arrumar a cama antes, ou realizar tarefas doméstica mais urgentes antes. Bem vindos aos anos 1950, meus amigos: com um baixo número de mulheres trabalhando fora, a casa era o escritório! Como o mundo mudou e conquistamos independência, hoje eu substituiria esse trecho aí por: "Não comece antes de terminar seus relatórios!".

A louça talvez meu cônjuge lave.😁

"Fisicamente", o livro recomenda cuidar do asseio pessoal na hora da costura: unhas bem lixadas, estar bem penteada, empoada e com batom, para que na hora da prova, a aparência somada ao resultado da costura sejam melhores. Ah, vai, OK também. Mas aí vem a parte que, se o marido chegar e você estiver desarrumada, acabou a graça da costura. É....sei lá o que vocês pensam sobre isso...eu só penso: o mundo mudou (pelo menos aqui em casa).

Aqui vai o excerto:

Hoje parece meio estranho, mas nos anos 1950 isso fazia sentido.

"Decore sua casa"

Outra coisa interessante é que cerca de metade do livro é dedicado a ensinar como fazer o enxoval, os objetos para casa, como lençóis, colchas, almofadas, capas de sofá e cortinas.

Naquele tempo, comprar estes itens prontos era uma tarefa cara, de modo que muitas moças costuravam e bordavam seu próprio enxoval ainda quando solteiras. E quando casadas, continuavam costurando para substituir peças desgastadas ou já meio fora de moda. 

Isto já não é necessário hoje, mas o tópico é interessante pois muitas das técnicas usadas nestas peças são parecidas com as utilizadas na construção de roupas.

Uma dos quartos ideais do fim dos anos 1940 e começo dos 1950, apresentado no Livro.
Tudo rosa e bem acolchoado, o que inclui o guarda-roupa rsrs


4) Onde encontrar?

Em resumo, você já viu como este livro amplifica os conhecimentos sobre técnicas antigas que podem ajudá-lo na Costura Histórica. Agora é só saber como encontrar :)

Olha, não é difícil encontrá-lo em sebos físicos e virtuais. A variação de preço é graaande: já vi por R$ 20 a R$ 150. 

Para quem não encontrar, existe uma versão online, mas em inglês no site Archive.org. A versão é de 1949, mas é igual a de 1957.

Mas antes: veja aí se sua mãe, sua avó ou bisavó têm um guardado no fundo da estante 😉😉


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