Acervo Modateca SENAC - Uma coleção de roupas vintage em SP

by - setembro 09, 2019


Conheci um acervo de roupas históricas DE VERDADE, e quero compartilhar a experiência com vocês!



Acervo MODATECA: o que é isso?

Bom, aprendi a costurar direito e a riscar moldes no SENAC Faustolo, que é uma instituição de ensino privada que fica bem perto da minha casa, aqui em São Paulo/SP. Como meu curso era à noite, eu chegava sempre em cima da hora e poucas vezes conseguia ir à biblioteca. Esta biblioteca, por sinal, é bem recheada de livros de História da Moda e gostosa de frequentar.

Porém, a biblioteca conta com um anexo muito rico para quem gosta de pesquisar a moda vintage / histórica do século XX, a MODATECA.

A Modateca é um anexo da biblioteca do SENAC, que abriga um acervo têxtil disponível para consulta e pesquisa (nada está à venda 😊). Ou seja, é como uma biblioteca, mas de roupas do passado (e tudo relacionado a este universo).

Acervo de figurino
Sala da Modateca: disposição das peças em armários e gavetas.

O que tem lá e como visitar?

Como muita gente não conhece o acervo ou não mora em SP, resolvi fazer um resumão da visita, para que vocês possam ver noção do potencial do lugar 😊O material é simplesmente....fantástico! Então se você estiver passeando aqui pelas bandas de São Paulo e realmente for muito interessado em História da Moda, vale a pena a visita!

 O acervo pode ser dividido em:
1. Roupas originais dos anos 1940 aos 1980;
2. Acessórios femininos dos anos 1930 aos 1980;
3. Revistas dos anos 1920 aos 1970 (pode parar o jogo, tudo já valeu a pena!);
4. Bandeiras têxteis com amostras de vários tecidos.

Sapatos
Bolsas e sapatos de couro dos anos 1930 a 1940 e uma chapeleira também de época.
Vou colocar logo o endereço e o horário de funcionamento, que tô ligada que é disso que o Brasil gosta (rsrs):

MODATECA SENAC FAUSTOLO:
Rua Faustolo, 1347
Bairro Lapa - São Paulo/SP
Horário:
2ª a 6ª feira: 8 às 21 horas; sábado: 8 às 14 horas.

Como é um acervo de peças antigas e originais, já fragilizadas pelo tempo, é preciso cuidado ao manipular as peças. Então vão alguns detalhes do que você precisa saber antes para ajudar a conservar o material:

  • Não mexa em nada nas gavetas sem perguntar se pode e como fazer;
  •  As revistas só podem ser tocadas com luvas (fornecidas lá), porque o óleo das mãos mancha as páginas;
  • Não pode vestir/experimentar nenhuma roupa (sempre tem um filho de Deus, né....).
O staff da bilioteca é superacessível e é só perguntar a eles essas questões, que eles responderão com toda a atenção 👌❤

E como neste blog só trabalhamos com ibagens, bora comigo nessa tour? 😆 

(P.S.: as fotos estão meio claras porque o dia estava ensolarado, mas também porque o celular não é dos melhores rsrs paciência! rs)

Um breve tour neste arquivo de História da Moda!

Bom!

Todo o material está acondicionado em gavetas, identificadas conforme sua década e utilidade. A gaveta das lingeries dos anos 1950, a das roupas masculinas dos anos 1970 e por aí vai. Tudo dobrado e acondicionado fora da luz, contendo uma etiqueta com os dados gerais da peça: ano estimado de confecção, nome do doador e contexto geral (tipo de tecido e bordado, etc).

Nem todo material pode ser tocado. Alguns ficam expostos em gavetas especiais, horizontalmente, evitando qualquer dobra e luminosidade que possa danificar as fibras já frágeis dos tecidos. Para mim, são as peças mais valiosas em termos históricos. Separadas em temas, se encontram sutiãs, luvas, bolsas e maiôs, quase todos ali de meados dos 1940 e 1960.

Calcinhas dos anos 1960
Combinações de seda e calcinha de malha dos anos 1960, quando as cintas caem em desuso e as ligas são anexadas à própria calcinha. 
As gavetas de sutiãs me deixaram particularmente contente porque estava procurando exemplares reais para basear as minhas lingeries com base histórica, como conto neste post aqui. Já tinha tomado nota de alguns detalhes de propagandas antigas das minhas próprias revistas, mas o avesso do avesso a Globo não mostra rsrs E na real: abrir cada gaveta é como descobrir um tesouro!

Sutiãs da década de 1950
Sutiãs curtos e longos, dos anos 1950 e 1960. Têm muitos outros!
As luvas eram acessórios essenciais até meados dos anos 1960 por razões estéticas, mas também de higiene. Era comum ter vários pares, porque elas sujavam muito. Na Modateca há exemplares com vários tipos de materiais: do couro de pelica ao crochê.

Luva de crochê
Luvas de várias décadas e materiais.
As bolsas também são outra coleção interessante: hoje nós carregamos uma bagagem aérea dentro delas, mas antes nada além da maquiagem, dinheiro e outros objetos pequenos pareciam ser necessários, seja de dia ou de noite. Bolsas pequenas para carregar no pulso e clutches de diferentes materiais é o que você vai alegremente encontrar por lá.

Bolsas da década de 1950
Bolsa de couro, clutch que provavelmente também era um estojo de maquiagem e bolsa bordada em petit point.
Na mesma sala, que é separada da biblioteca, há uma grande estante com alguns volumes encadernados. Quando li as lombadas, CATAPLOFT: vários dos meus títulos favoritos estavam lá, preservados e bem cuidados!

Centenas de revistas encadernadas: ouro puro.
Jornal das Moças dos anos 1930 e em cores (acostumei tanto a ver cópias digitais em preto e branco rs).....revista Labores dos anos 1950, Burda dos anos 1950 a 1970 e outros títulos mais obscuros. Eu não sabia nem por onde começar.

Revista vintage
Revista Labores de Vosotras, Argentina
Vocês sabem da minha paixão por revistas de moda de época (tenho mais de 100, 120...)....só pensei: "Eu nunca mais vou precisar comprar revistas!" (Kati, a quem você está querendo enganar? kkkk) 💃

Revista Manequim antiga
Para quem gosta de moda dos anos 1960: Manequim, outra revista complicadinha de achar
Logo, já sei para quem vou doar minha coleção quando o meu brilho deste mundo se apagar, e este será o meu legado para a humanidade. Sem mais. 😔
Figurinos da década de 40
Figurinos dos anos 1940 que já nem sei de onde fotografei.
Há algumas gavetas que não podem ser mexidas porque contêm material danificado que será restaurado. Tentando identificar pelo vidro, pareceu que vi um molde original da McCall escondido. Não foi uma miragem. Depois, trocando umas ideias, pela primeira vez na vida eu vi, toquei, senti, um molde real da McCalls dos anos 1940 (esse não estava para restauro). Estes moldes são americanos, mas foram vendidos no Brasil entre os anos 1930 e 1940. Não sei se quem doou comprou aqui ou lá, mas eu daria um rim um cheque pré-datado por todos eles, caso um dia rsrs

Aliás, antes de chegar lá pedindo os moldes, já lhes aviso que o acesso é mais complicado e que não é permitido riscar/copiar os moldes. A razão é muito justa: são papéis de seda com mais de 70 anos de idade, já muito alfinetados e manipulados ao longo das décadas. Se o intuito é preservar, não faz sentido fragilizar ainda mais o material sem um objetivo forte que não seja a pesquisa.

Instruções de molde da década de 1940 da McCall.
Outra coisa interessantíssima: uma, ou melhor duas caixas de amostras de tricô dos anos 1930 ou 1940. Era assim: a moça fazia a amostra e pregava em um cartão, que continha o nome do ponto e as instruções, para usar como referência para suéteres e outras peças de roupa futuramente. Ah, e cada cartão era escrito com uma bela caligrafia na caneta de bico de pena. Organização. Um dia vou fazer isso também 😅

Amostras de tricô devidamente organizadas.
Outra coisa legal é ver como as lãs eram mais finas e consistentes que as atuais, concluindo-se que até a moda neste setor muda. Nos anos 1960, a moda no tricô era usar fio grosso e sintético... neste milênio se a gente puder usar um corda pra tricotar uma blusa, usa rsrs....e o fato é: fio grosso, trampo preguiçoso (kkkk).

Aliás, abaixo segue uma receita de suéter de Natal da década de 1940, em alguma das revistas que estava por lá. Porque não usamos mais suéteres de Natal, inclusive fora do Natal?? O mundo precisa voltar a ser divertido!!!
Suéter de tricô, da década de 1940.
Falando em revistas, veja uma amostra de tecido que encontrei em um dos exemplares franceses de 1920. Que registro maravilhoso! As lojas mandavam estas amostras para incentivas as leitoras a visitá-las e, às vezes, ainda recomendavam que aquele tecido era o ideal para fazer os moldes sugeridos pela revista. É, amigxs: o mundo é dos espertos!
Toile de Bretagne
Amostra de "Toile de Bretagne", da década de 1920.
Voltando às gavetas, mas agora nas que podiam ser mexidas: uma peça que eu procurava ver originais há tempos: um vestido dos anos 1950! Em linho rosa, real, ali nas minhas mãos! Pude ver todas as costuras, os modos de fazer, o bordado e os avessos, tirar todas as minhas dúvidas, tomar todas as notas. Tenho sim um vestido dos anos 1960, um pouco danificado, mas que já me ajudou a entender um pouco sobre as técnicas de costura do passado. Mas eu queria ir descendo na escala do tempo e achei que só teria a chance de ver um vestido original dos anos 1950 na gringa. Fico feliz por ter tido essa oportunidade aqui!
Vestido de linho original dos anos 1950. O primeiro que vejo pessoalmente.

A seguir, uma gaveta de sapatos dos anos 1940, 1950, 1960 e 1970. com exceção dos últimos (as sandálias e alguns escarpins), todos são de couro bovino ou de pelica (couro de carneiro) e um de crocodilo, o que provavelmente garantiu a sua durabilidade até agora.... e olha: os tamanhos são super pequenos. No máximo um número 33 ou 34 atual! Gente, como a humanidade cresceu, para cima e para os lados. Nosso corpo é outro! Será que as próximas gerações serão ainda mais altas?

Sapatos femininos dos anos 1940, 1950, 1960 e 1970

Minha impressão sobre os sapatos: os modelos não tem NADA A VER com o que vemos anunciados por aí como modelagem vintage ou retrô. Nem a modelagem nem as cores. Estes modelos são muito mais austeros e muito menos "boneca". São geralmente fechados e os bicolores são marrom/creme ou preto/creme..... Já tinha reparado nisso vendo propagandas nas revistas brasileiras e argentinas, embora também tenha notado mais variedade de cor (azuis de camurça, por exemplo). Entendo que uma coisa é "inspiração" e outra é "recriação", mas para ambas é preciso ter referências, meus queridos designers de sapatos 😉

Ainda há uma coleção ENORME de chapéus dos anos de ouro (30, 40 e 50), mas à essa altura eu já estava cansada de tanta informação e eles estavam acondicionados de uma maneira que eu não quis mexer com pressa. Outro dia. Porém chamou muito a minha atenção um exemplar original de chapéu de feltro com a marca Mappin, dos anos 1930 com certeza, e que lembra muito alguns dos estilos que documentei aqui neste post

O Mappin Stores foi uma das lojas mais tradicionais de São Paulo, ditando moda desde 1913, passando pelas flappers dos anos 1920 e, por mim nos anos 1990 (HAHAHA minha mãe amava ir!). Catálogos do Mappin são RARÍSSIMOS, peças de museu (acredite, tô no mercado faz tempo hahaha). E peças sobreviventes com a etiqueta são tão raras quanto. Então aqui neste simples chaéu têm um pouco sobre a História da Roupa e da sociedade paulistana mais abastada.

Mappin
Um chapéu de feltro da década de 1930, comprado na Mappin Stores.

Indo para as bandeiras têxteis: são um material bem legal para consulta, considerando a variedade de tecidos disponível. Lá você vai sacar a diferença entre crepe da China e Shantung, ver diferentes tipos de tules e sedas e malhas..., e ver tecidos que simplesmente nem existem porque não existem mais comercialmente ou porque as lojas que a gente visita só têm tricoline rsrsrs.....enfim!

Bandeiras têxteis
Para finalizar, o vestido abaixo é um Dener Pamplona, quando ele lança sua linha prêt-à-porter (ou seja, roupa pronta como nós compramos em lojas, e não sob medida) dos anos 1960 ou 1970. Para quem não sabe, Dener foi um dos expoentes da moda brasileira do período, ganhando diversos prêmios e rivalizando com Clodovil Hernandes. Ele merece um post futuro só pra ele 💗

anos 1960
Um vestido do estilista Dener, da década de 1960.

Aliás, na mesma arara há outras peças de estilistas famosos dos anos 1970 e 1980 (que é um período que não manjo muito, mas o staff atencioso do SENAC me deu algumas dicas). Ou seja, se você curte estes períodos, vale a pena ver as etiquetas e buscar saber quem está por trás daquela roupa 💗

Por falar em Clodovil Hernandes, vamos fechar com a voadora no peito com chave de ouro? Um vestido de noiva, provavelmente dos anos 1990, exposto no andar de cima da Modateca, portanto bem longe do Dener kkkkk e onde que você vê tanto um quanto outro, os dois mestres das agulhas, expostos no Brasil? "Em lugar nenhum, meu amor!"

Poderoooosa!.......................

Vestido de noiva
Vestido de noiva desenhado por Clodovil Hernandes.
Eu colocaria um Ronaldo Ésper ao lado, só pra polemizar 😅😅

Ah, como esquecer este Emilio Pucci dos anos 1970? Psicodélico! Parece roupa da Megan Draper!

Emilio Pucci, outro grande nome da moda.

NOTA FINAL: ouro, rubi e diamantes

A Modateca é o mais próximo que você vai chegar de roupas vintage de verdade, considerando que São Paulo, por incrível que pareça, está com todos os seus principais acervos de indumentária fechados para visitação (SP: a locomotiva do Brasil...na direção contrária, no caso). 

Aliás, sempre bom lembrar que o Brasil está ainda engatinhando na temática de conservação e acervo de têxteis. Talvez porque não se dê à roupa o seu status apropriado de registro de cultura material. Isso não sou eu que está falando, são vários artigos acadêmicos que tratam do assunto.

Foi engraçado para mim ver vários visitantes durante o período que estive lá (umas 3 horas), mas com leituras superficiais do acervo ou mesmo falta de vontade de entender aqueles registros históricos. Ou mesmo alguma confusão do tipo: "O que é isso?" Vai, até entendo! Mas a História não está só nos livros e a gente precisa começar a tentar ler a Cultura a partir da Roupa. 

Então se você curtir a moda do século XX, vale visitar tanto a biblioteca quanto o acervo.

Obrigada pela leitura e por me acompanhar nesta visita! Deixa aqui o seu comentário sobre o que achou da Modateca e se na sua cidade existe algum lugar assim que possa ser visitado 💚 Nós queremos saber!!!

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2 comentários

  1. Que post maravilhoso! Ai se todo museu tivesse um guia assim...

    Eu já fui lá pelo menos duas ou três vezes e confesso que não explorei tanto! Fiquei só nas revistas e gavetas de lingerie.

    Já quero voltar lá de novo

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    1. Ju, obrigada pelo comentário!!! Se me contratassem eu seria guia de lá com prazer rsrs talvez eles tenham recebido mais doações desde a última vez que você visitou ou mesmo eles tenham colocado algo mais em exposição. Mas é tanta coisa que não dá pra ver tudo mesmo em um dia! Pra pesquisa aquilo é um buraco sem fundo <3 hahaha

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