Planejamentos e Metas - Lingerie dos anos 1940s

by - julho 12, 2019


Propaganda de soutien

Uma ideia tem perturbado a minha cabeça: fazer lingerie (!).

Quando falo de lingerie, não é essa que tem nas lojas por aí. Se fosse essa, eu compraria HAHAHA é lingerie com modelagem vintage.

Como vocês sabem, estou engajada em aumentar meu guarda-roupa inspiradamente vintage - ou retrô - a partir de moldes originais de época. Tem a parte do sucesso, mas também alguns fracassos. Do último fracasso veio a vontade de aproveitar o tempo apertado fazendo projetos menores e com frustrações proporcionais HAHAHA.

O último fracasso.....nem vou entrar em detalhes.

Minha agenda não é muito diferente da agenda de vocês. Trabalho o dia todo em escritório e às vezes viajo à trabalho (o que já bagunça qualquer cronograma). O mínimo de redes sociais (tempo gasto, tempo perdido!). E como faço muitas técnicas e estou amando costurar, acabo com muitos projetos ao mesmo tempo e a demora para terminá-los é maior (aqui é a parte da desorganização!). Fora as horas de pesquisa que são tão prazerosas quanto fazer algo.

Mas porque mesmo fazer lingerie?

Tenho 3 motivos e pode ser que você se identifique com algum deles.


     1. Não me adapto à lingerie moderna


Parece conversa de enjoado, mas tenho dificuldade para achar sutiã que me caiba. Quem tem peitão reclama, mas as desprovidas como eu também tem seu lugar de fala 😆😆😆 Tenho apenas 84 cm de busto e as seguintes opções disponíveis no mercado são: sutiã de bojo e (agora) o bralette. 

Com o bojo tamanho P os meus preciosos ficam boiando lá dentro, afogados no meio de tanto ar. Aí aquela massa de espuma fica subindo, incomodando, suando. Uma figura mais deformada e incomodada é impossível. Já o bralette que não tem nem espuma nem uma modelagem mais arredondada achata tudo, né? 

Sutiã de bojo: taca álcool e toca fogo.
Se tinha alguma que prestava nos anos 1990, essa coisa era o imbatível sutiã meia-taça: um aro embaixo e sem bojo, muitas vezes de renda. Levantava, aumentava e não dava calorão, tudo de uma única vez. Era o abraço que o peito queria! A marca De Millus vendia em catálogos, minha mãe vendeu muito! Porém, recentemente comprei dois sutiãs da marca e ambos ficaram pavorosos: com folgas na frente (que dá pra ver por cima da roupa) e extremamente apertados no torso (nem com extensor ficam confortáveis). 

Sutiã De Millus
Uma ode ao belo meia-taça. E que belo slogan!
De Millus, coleção Renda Francesa, 1993.
Fonte: site Propaganda em Revista.
O jeito é sair logo sem sutiã.

Não sei se para as meninas que tem mais seios os bojos e bralettes funcionam, e nem como é que fica quando a gravidade deixa de ser uma fórmula matemática para se tornar uma realidade (mandem comentários!).

(já falei pro boy que até colocaria silicone. Ele disse que prefere dormir com o capeta 😈😈😈)



    2. Roupas de baixo que acomodem perfeitamente as roupas de cima (vintage)

O tal do undergarment. Essa palavra, no bom e velho português, quer dizer roupa de baixo. Calcinha, cinta-liga, soutien, anágua, corset, corselet, combinação são coisas que as nossas (bis-)avós usavam para achatar o que tinha que ser achatado, aumentar o que tinha que ser aumentado e curvar o que precisava ser curvado, segundo a silhueta da moda de cada década e cada fase da vida da mulher.

E essas partes a "corrigir" ou "acentuar" eram o busto, a cintura e os quadris.

Só brincando com alguns exemplos aqui: na década de 1920, a modelagem dos vestidos era quadrada e plana. A cintura era baixa, fora da linha natural. Então o corpo ideal seria aquele bem magro, sem peito e sem bumbum. O sutiã pata esse efeito seria algo do tipo bralette.

PAdrão de costura da McCalls, década de 1920. Nada de frente, nada de costas. A moda era ser longilínea. Não cabia um bojo aqui, mas um bralette sim!
Fonte: Vintage Pattern Lending Library Wiki
Anos 1940 até 1947. A grosso modo, a silhueta predominante era: busto médio, cintura fina, quadril estreito a médio. Os vestidos tinham a cintura marcada na posição natural, muitas vezes com cinto, dando ao corpo uma versão ampulheta muito leve, pouco comparada com o que viria na década seguinte. As saias não eram armadas e as pregas ficavam muitas vezes na frente, ou nem haviam pregas. Às vezes as saias eram cortadas no viés, desviando o ponto focal para o movimento fluido da barra situada na altura ou abaixo dos joelhos. O bumbum era secundário, vamos dizer assim. Decote decotão nem existia, esqueça.

O que se usava para alcançar esta silhueta, de modo bem geral: 
  • Sutiã modelado do tamanho do seio (com pences para acomodar a mama certinho), sem bojo;
  • Cinta (mais especificamente as girdles) para aplainar as sobrinhas, partindo da cintura e terminando nas coxas.
É claro que as lingeries antigas tinham truques como espumas de látex, preenchimentos, entre outras coisas. Ainda assim, essas peças eram mais anatômicas. Nada que se compare ao instrumento de tortura chamado "sutiã de bojo".

Anos 1940 e à direita combo sutiã, calcinha e cinta-liga. Veja como a linha geral do corpo é aplainada, mas os seios aparecem muito mais que nos anos 1920.
Fonte: Pinterest (usuária Sabrina Lin) 

Então, como é que dá usar o  tão sonhado vestido dos anos 1940 com um caimento perfeito, portando um sutiã de bojo e uma calcinha que ressalta ainda mais o pandeirão de 100 cm?? Para não falar da cintura 😂😂😂

Reflita.


        3. Fetiches com rendas e cetins

Não que não exista lingerie bonita por aí...e nem que a boa e velha lycra não seja confortável (é e muito, obrigada modernidade!). 

Mas falta alguma coisa.........faltam lacinhos (que não caem), fitas (que não desfiam), pespontos e costuras (que não rompam), rendas (que mostrem sem mostrar), cetins (em recortes estratégicos), transparências, tons pastéis e pretos ocasionais, bordados delicados e minúsculos florais. Tá tudo tão industrializado e descartável...Ou sou meio nostálgica.

Betty Draper (Mad Men) no começo dos anos 1960. A bicha é poderosa mesmo.
Até existem umas marcas de shopping com coleções com esta estética, mas 300 dinheiros por uma roupa de baixo não parece razoável. Se não posso, faço eu (hehehe vamos ver, né?)

Essas peças podem parecem antiquadas (e comparadas as de hoje, de algum modo são). Porém também são delicadas e bem secsy-hot 😇😈

Catálogo de lingerie da década de 1950: uma imensidão de detalhes.
Fonte: desconhecida.
"Ah.....mas ninguém vê, e daí?.................". EU VEJO (olha o empoderamento HAHAHA).

Aliás, gente, essas expressões calcinha da vovó, roupa da vovó, lingerie da vovó...só confundem! Definitivamente, estas lingeries não tem nada a ver com aquelas calçolas beges gigantes associadas a "calcinhas de vó". Uma coisa é a avó atual desejando conforto, é mais que um direito dela...e outra era essa mesma mulher nos anos 1940, 1950, 1960, jovem ou na meia-idade, querendo se enquadrar numa silhueta, ser moderna, ter aquele encontro especial, etc. É uma outra função para a peça de roupa. É dessa avó que estou falando.

E era essa a roupa de baixo que a sua avó sonhava quando era jovem. Vamos aceitar.

Sugestão de enxoval de casamento para fazer em casa, ilustrada revista Moda e Bordado, ed.21, 1948.
Fonte: acervo pessoal.
Este texto da pesquisadora Mara Rúbia Sant'anna, que fala sobre a publicidade de lingerie nos anos 1950 e 1970, explica como esta se tornou a estética da época e dá pistas do porquê hoje o rumo é diferente:


"Em anúncios (...) entre 1950 e 1970 era explorado um significante da feminilidade que passava pelo signo da lingerie rendada, em tecidos sedosos, enfeitada com lacinhos de fita e florzinhas, transparente em alguns detalhes e minuciosa nos acabamentos (...)  

 A atenção com o seu íntimo, a  preocupação com uma roupa que seria vista por tão poucos, todos os tons de moralidade associados à legitimidade de querer uma lingerie, eram ideias que os anúncios exploravam, reforçando o sentido de feminilidade como algo inseparável daquela noção de elegância definida como atributo de uma alma verdadeiramente feminina." 

Aqui neste blog as roupas são retrô, mas os pensamentos não são retrógrados. A liberdade feminina é um ganho para a sociedade! Contudo, é interessante saber quais eram as ideias e culturas e contextos que guiavam a estética das roupas (maravilhosas) de meados do século XX.


Voltando ao planejamento

Faz parte de um planejamento definir metas possíveis de ser alcançadas dentro daquela realidade. E metas devem ser públicas para que sejam cobradas HAHAHA

Então, no momento decidi deixar em suspenso a meta de fazer um vestido dos anos 1940 para, ao invés disso, fazer a base do vestuário que será perfeita para o seu caimento. Assim aprendo e posso  passar para vocês o que essas peças são de um modo mais visual e experimental.

O objetivo é entender como fica um sutiã de algodão feito em casa, como é usar uma calcinha dessas longas e de cintura alta, como que se fazia uma cinta em 1940 e 1950, como estas roupas modelam o meu corpo...enfim, como que se faz.

Como são projetos pequenos, as metas são as seguintes:
  • Julho: sutiã dos anos 1940;
  • Agosto: calcinha dos anos 1940;
  • Setembro: cinta-liga com barbatanas (só posso estar louca).
A ideia é guiar tudo pela modelagem do livro "Corte Certo" de 1948, da Iracema Motta, que é praticamente um hieróglifo a ser decifrado. Porquê justo esse? Não sei, gosto de sofrer. 

Modelagem antiga
Excertos do livro "Corte Certo" (1948) de Iracema Motta .
Fonte: acervo pessoal.
O cronograma é longo porque quero uma folga para errar e retomar o fôlego fazendo de novo. Errar é uma certeza!

Esse vai ser um ótimo meio de aprender técnicas bem detalhadas/detalhistas de costura vintage, sobretudo de lingerie, que poderei usar futuramente nos vestidos. Coisas que podem parecer bobas, como colocar um elástico ou pregar ganchos, não são tão bobas quando o objetivo é fazer isso direito e bonito HAHAHA

Agora fazer a cinta-liga vai ser um verdadeiro desafio! Nunca trabalhei com barbatanas e já tô preparada para o post do fracasso. Mas desafio é desafio!

Na realidade, quem me acompanha no Instagram sabe que já comecei um dos projetos, que está na fase piloto! E está dando certo. Aguardem notícias que eu já volto!!!!

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PARA LER:
SANT'ANNA, M.R. Consumir o belo, tornar-se moderno nos anos 1950 e 1960. In: SIMILI, I.G.; VASQUES, R.S. Indumentária e moda: caminhos investigativos. 2014. (tem no Google Books)

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